Manaus

O que nos vem a mente quando nela se pensa?

Uma cidade cercada por floresta e rios.

E há quem acredite que ainda encontrará índios a cada esquina! A grande maioria dos brasileiros nem cogita na possibilidade de visitar o Norte do país, no máximo uma passada em Belém.

…Há algum tempo atrás eu me incluiria nessa categoria. Afinal, o desconhecimento sobre a nossa história é notório e essa região do país só é alvo de notícias quando entra em pauta o assunto desmatamento e preservação da Floresta Amazônica.

…Mas é verdade, Manaus está cercada por rios, riachos e igarapés. Onde o homem ainda não derrubou você se depara com a floresta. A capital amazonense é privada de ligação terrestre para outros estados, exceto Roraima. Mas é muito mais do que isso.

…A cidade tem um belo patrimônio preservado que conta um pouco de seu passado glorioso no tempo em que a borracha era o ouro branco da Amazônia. Portanto, desfaça-se de ideias preconcebidas e, quando for possível, vá até lá para conhecer um pouco mais daquele pedaço do Brasil. Eu fui não só uma, mas duas vezes, e recomendo.

…A primeira vez que estive em Manaus foi em uma viagem de 15 dias pelo Norte do país. Parti de Porto Velho em um voo que durou cerca de uma hora sobrevoando a Floresta Amazônica.

Chegando em Manaus
 
…Dos céus, de onde não parava de fotografar aquele tapete verde, entrecortado por pequenos rios interligados como canais arteriais, tive a primeira impressão da cidade. Aos poucos a Floresta Amazônica vai dando espaço para áreas cada vez mais habitadas. De repente surge aquele mundo de água, parecendo um mar, o Rio Negro… e mais ao longe, prédios, muitos. Estávamos sobrevoando Manaus.
…Iniciam-se os procedimentos para aterrissagem e percebo que na linha do horizonte há uma nítida mudança na cor daquela massa de água. É ali o encontro dos dois grandes rios, o Negro e o Solimões, que ao se misturarem passam a ser um só, o grande Rio Amazonas. É o rio Negro quem margeia a cidade, onde fica o porto e a praia de Ponta Negra. Dele também partem os principais passeios rumo à floresta, tanto de barco quanto de hidroaviões.
…Quando pensava em Manaus, a ideia que vinha à mente era de uma cidade bem menor. Mas se trata de uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes, que já foi conhecida como “Paris da selva”, referência aos áureos tempos do ciclo da borracha. Porém o que atrai hoje em dia os turistas, na sua grande maioria estrangeiros, é a selva brasileira. Eles fazem questão de conhece-la, nós, ainda não.

 

Conhecendo a cidade

…Do aeroporto fui de ônibus até o centro, de onde peguei um taxi até o hotel, que estava próximo ao Centro Histórico.
  • Primeiro dia
Após o cafe da manhã, já estava na bonita e conservada praça Heliodoro Balbi. Aproveitei para fotografar as esculturas enquanto aguardava o horário de abertura do Palácio Provincial.

O imponente edifício Palacete Provincial teve sua construção concluída em 1874 e abrigou várias repartições públicas ao longo dos anos, porém ficou por mais de 100 anos conhecido como o Quartel da Polícia Militar. Atualmente abriga alguns Museus. No entanto o que mais teve a minha atenção, foi o Museu de Numismática Bernardo Ramos.

Em duas grandes salas do Palácio Provincial, o Museu de Numismática expõe, permanentemente, mais de 17 mil moedas criadas desde a antiguidade, o que me permitiu fazer uma viagem ao longo do tempo.  Em outros salões estão a Pinacoteca com um acervo de mais de 200 obras, entre elas as de  artistas amazonenses, brasileiros e estrangeiros produzidas entre os séculos 19 e 20. O Museu da Imagem e do Som, a Sala de Arqueologia, onde se encontram artefatos arqueológicos encontrados na região amazônica e o MuseuTiradentes que retrata a história da Corporação Militar do Estado do Amazonas.


No Largo de São Sebastião, o magnífico Teatro Amazonas

No final do Século XIX, auge do ciclo da borracha, embalada pela riqueza advinda do látex, produto muito valorizado pelas indústrias europeias e americanas, Manaus era uma das mais prósperas cidades do planeta. Para consagrar essa época foram construídos vários prédios e casarões em estilo “Belle Époque” E como tal, a cidade necessitava de um teatro onde as companhias de espetáculos estrangeiras pudessem se apresentar.

O Teatro Amazonas teve sua pedra fundamental lançada em 1884. Porém as obras transcorreram de forma lenta e somente em 31 de dezembro de 1896 foi inaugurado. Para sua construção foram trazidos arquitetos, construtores, pintores e escultores da Europa. De lá também vieram de navio e em partes, quase todas as composições

O Salão Nobre, área mais luxuosa, ficou sob a responsabilidade do artista italiano Domenico de Angelis. Tem características barrocas e o destaque é a pintura do teto, denominada “A Glorificação das Bellas Artes na Amazônia”. Para seu acesso é necessário calçar pantufas, tamanha é a preocupação com a preservação do piso original, composto por 12 mil peças de madeira encaixadas, sem cola ou pregos e onde ainda se podem evidenciar arranhões atribuídos aos saltos dos sapatos das damas ao dançar.

Do Salão Nobre se abrem portas para uma varanda de onde se pode apreciar, no horizonte, o Rio Negro.

A Sala de Espetáculos do teatro com capacidade para 700 pessoas, distribuídas entre a platéia e os três andares de camarotes, tem no teto abobadado afixadas quatro telas pintadas em Paris pela Casa Carpezot (a mais tradicional da época), onde são retratadas alegorias à música, à dança e à tragédia, além de uma homenagem ao grande compositor brasileiro Carlos Gomes. A pintura simula a Torre Eiffel vista de baixo para cima. É dali que pende um lustre dourado com cristais de Veneza.

No pavimento térreo as colunas estão ornamentadas com máscaras em homenagem ao Teatro Grego com os nomes de artistas consagrados na música, no teatro e na literatura, como Ésquilo, Aristófanes, Moliére, Rossini, Mozart, Verdi, entre outros. O pano de boca do palco, autoria do pernambucano Crispim do Amaral, faz referência ao encontro das águas dos rios Negro e Solimões. As grades de ferro que compõem os camarotes e balcões são francesas.

Há mármores italianos por todos os lados. Só a madeira é brasileira, mas precisou ir para Londres onde foi tratada e entalhada. Como o Teatro tem outros ambientes concebidos com diferentes materiais, seu estilo é considerado eclético.

A cúpula é composta de 36 mil peças de escamas em cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas, vindas da Alsácia. Foi adquirida na Casa Koch Frères, em Paris. A pintura ornamental é da autoria de Lourenço Machado. O colorido original, em verde, azul e amarelo é uma analogia à exuberância da bandeira brasileira.


Em virtude do seu valor arquitetônico e, principalmente, pela sua importância histórica, prova viva da prosperidade e riqueza vividas em uma época, foi tombado como patrimônio histórico em 1966. Nos meses de abril e maio o Teatro abre as portas para o Festival Amazonas de Ópera.

Ao lado do Teatro, o belo Palácio da Justiça

Construído em 1900 e sede do tribunal até 2006, atualmente o Palácio da Justiça é um centro cultural. Com fachada de estilo eclético o que se destaca nesta construção é a imponente escadaria interna com um grandioso relógio e os detalhes do teto em estuque de autoria de Coelho Castro.

No pavimento superior se encontra boa parte do mobiliário original usado no tribunal, além de magníficos lustres de cristal, vasos chineses e o piso de madeira nobre.

O primeiro piso é reservado para exposições temporárias e as do momento era “Anauê” com lindas fotografias de crianças indígenas, autoria de Ruth Jucá e “Beiradão Urbano” onde as imagens do fotógrafo Jimmy Christian mostram o cotidiano dos ribeirinhos que vivem às margens dos igarapés e sua relação com os rios da região nos períodos de cheia e de seca.

No centro do Largo de São Sebastião, onde se encontra o Teatro há um monumento de Domenico de Angelis que celebra a abertura dos portos do Amazonas a todas as nações, ocorrida em 1867. Construído na Itália em mármore, bronze e granito, contém quatro naves que representam os continentes americano, europeu, africano e asiático, foi inaugurado em 1900, comemorando o quarto centenário do descobrimento do Brasil. Ao seu redor o charme de construções históricas restauradas, entre elas a casa da musicista Ivete Ibiapina, com sala de concertos e exibições de filmes.

…Já passava das 14 horas quando me dirigi à centenária Igreja de São Sebastião, cuja torre única revela o declínio do apogeu vivido por Manaus, pois a segunda torre jamais seria transportada para o Brasil. Como era quarta-feira, dia de limpeza geral, só abriria às 16 horas, tempo suficiente para fazer o city tour no Amazon Bus, que é um ônibus de 2 andares, com o superior descoberto, utilizado para se fazer um passeio panorâmico pelas principais atrações de Manaus. Não há paradas, exceto em Ponta Negra.

…Debaixo do sol escaldante, amenizado pelo ar refrigerado, iniciamos o passeio pelo centro histórico, seguido da visita panorâmica aos igarapés revitalizados, o Centro Cultural dos povos da Amazônia, o estádio de futebol, que será demolido para que um mais moderno esteja pronto para a Copa de 2014, já que Manaus será uma das doze cidades sedes. Passamos por bairros modernos e por fim a única parada na praia de Ponta Negra, que surge com a diminuição do nível das águas do Rio Negro. Numa sorveteria do calçadão experimentamos os sabores exóticos dos diversos sorvetes da região em seguida retornamos ao largo de São Francisco.

…Quase 18 horas e a Igreja ainda não tinha sido aberta. resolvi que seria melhor voltar no dia seguinte. Segui em direção ao Porto, onde os raios solares nos presenteavam com um magnífico crepúsculo.

…Anoitece e a máquina  fotográfica continua registrando aquela bela paisagem portuária.

…Do porto, retornei caminhando para a praça Heliodoro Balbi e me encantei com a iluminação do lugar: música suave de boa qualidade e fontes luminosas que jogavam a água com movimentos cadenciados.

  • Segundo dia

…Mais um dia de caminhada e aproveitei para conhecer um pouco mais do centro. Cheguei ao Palácio Rio Negro de onde segui para visitar o Museu do Índio.  Nesse trajeto tive a oportunidade de ver alguns igarapés revitalizados.

…Retornei ao Largo de São Sebastião e entrei na Igreja São Sebastião, com sua beleza centenária. O próximo destino foi o Museu Amazônico, onde após a visita, assisti a uma apresentação de um coral da “Boa Idade”, como parte das comemorações da Semana do Museu.

Museu Amazônico
Abriga um acervo composto de mais de 5 mil peças de mais de 20 etnias indígenas (ianomami, ticuna,  entre outras). Além de acervo da Amazônia colonial e do período da borracha.
Onde: R. Ramos Ferreira 1036 – Centro
Quando: 2ª a 6ª (8 às 12 h e 14 às 17h)

…O final do dia foi na Casa da Pamonha, onde tomei um café regional, com direito ao “X- Caboclinho”, sanduíche típico amazonense de pão francês com fatias de tucumã e queijo coalho.

  • Terceiro dia

…Na manhã do último dia fui conhecer o comércio da cidade. Foi-se o tempo em que fazer compras na Zona Franca de Manaus era vantajoso. Praticamente não há diferença de preços praticados com relação a outras regiões do Brasil.

Mas, por que era bom comprar em Manaus?

Com o fim do Ciclo da Borracha, a região entrou em um ciclo de decadência que foi quebrado com a criação da Zona Franca na década de 60 (século 20), onde eram oferecidas isenções fiscais para indústrias de produtos eletroeletrônicos que fossem instaladas em Manaus. Desenvolveu-se um comércio acelerado com preços convidativos e existia grande  vantagem em comprar esses produtos e revender em outras regiões. Conheci pessoas que iam exclusivamente à Manaus para isso. No entanto, a partir de 1990, no governo Collor, com a abertura do país às importações, houve uma competição desfavorável para esses artigos e caiu o interesse  de se comprar na Zona Franca, apesar do grande parque industrial que existe na cidade.

…O famoso Mercado Municipal estava em reforma, mas conheci o interessante prédio da Alfândega de 1906, uma da primeiras construções pré fabricadas do mundo, que teve seus tijolos importados da Inglaterra. Esse prédio junto com o da Guardamoria e o Complexo Portuário foram tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1987.

…A Catedral Metropolitana, simples, mas o que me chamou a atenção foi a sua imponente escadaria. De lá retornei ao hotel. Chegara a hora de seguir viagem rumo à Belém.

Informações e dicas úteis para quem vai para Manaus
  • Ter a vacinação atualizada contra febre amarela e hepatite B.
  • Não esquecer: chapéu/boné, protetor solar, repelente de inseto e garrafinha de água mineral, além é claro, da máquina fotográfica.
  • De dezembro a julho é época de muita chuva, o que pode atrapalhar alguns passeios. No resto do ano faz sol, há muito calor e as águas dos rios começam a baixar.
  • Experimente a enorme variedade de peixes (tambaqui, tucunaré, pirarucu, dourado, etc). Os sabores exóticos das frutas locais (buriti, bacuri, açaí, cupuaçu, etc) em sorvetes da sorveteria Glacial e o famoso sanduíche Xis-Caboclinho.
  • Se gostar de artesanato, há muita opção de produtos indígenas. Mas fique atento, produtos utilizando penas de aves tem a comercialização proibida pelo Ibama.
  • Quer uma imersão na selva? a opção é se hospedar em algum dos vários hotéis de selva da região.
  • Para navegar pelos rios do Amazonas, há várias opções de passeios ou viagens. Como o Encontro da Águas. Os rios Negro e Solimões correm 6 km lado a lado sem se misturarem por contada das diferenças de densidade e temperatura, até se unirem formando o rio Amazonas. Esse encontro  de cores escura do rio Negro  e a clara e barrenta do Solimões é um evento que atrai diariamente  viajantes que partem em embarcações do porto de Manaus.

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