Madeira-Mamoré, a Ferrovia da Morte

Margeando a cidade de Porto Velho e penetrando no estado amazonense, o rio Madeira segue como via principal de acesso para as pequenas cidades ribeirinhas até próximo a Manaus, já que estradas, quando existem, são intransitáveis.

De águas barrentas invariavelmente arrastando troncos e toras, foi às suas margens que se desenrolou um dos episódios mais tristes na história do Brasil: a construção da “Ferrovia Madeira-Mamoré”.

Galpão da Estrada de Ferro

A ferrovia foi construída entre 1907 e 1912, ligando o rio Mamoré, na região de Guajará-Mirim, ao Madeira, em Porto Velho, para transpor por terra um trecho não navegável desse último. Dessa forma a borracha e outros produtos da Bolívia e do Centro-Oeste brasileiro poderiam ser escoados para o Atlântico, através do Amazonas.

Epopeia sobre cascalho e dormentes

Em meados do século 19 é sugerida a construção de uma ferrovia às margens do rio Madeira, por um engenheiro boliviano, como melhor saída de seu país para o Atlântico. Expedições foram realizadas para verificar a viabilidade do projeto, que culminou com o acordo de Amizade, Limites, Navegação, Comércio e Extradição (Tratado de Ayacucho) entre o Brasil e  a Bolívia. Mas é um coronel americano (George  Earl Church) que ganha a concessão do imperador D. Pedro II para a construção da ferrovia com recursos e tecnologia ingleses.
Após a primeira tentativa, a empreiteira inglesa abandona as obras. Assume uma outra, americana, que também não logra êxito. As condições de insalubridade, doenças tropicais, naufrágios, cheias do rio, ataques de índios e toda sorte de perigos ceifaram muitos trabalhadores vindos de vários lugares do mundo em busca de melhores salários.
Findo o Império! A nova República não tem muito interesse na ferrovia. No entanto, em 1903 a construção da estrada de ferro é uma das exigências para que o Brasil fique com a posse definitiva do território do Acre (Tratado de Petrópolis entre o Brasil e a Bolívia). Empresário brasileiro vence a concorrência para construí-la e, posteriormente, transfere o contrato para o investidor americano Percival Farquhar.
Finalmente a selva é vencida e a Ferrovia Madeira-Mamoré é inaugurada em 1912, não sem antes levar à bancarrota o conglomerado do americano.  No entanto  a economia da borracha, principal motivo para a construção, já estava em declínio por conta da concorrência do látex produzido em seringais asiáticos.
Foram 366 km ligando Porto Velho a Guajará-Mirim e a ferrovia só voltou a ter prioridade na 2ª guerra mundial, quando os governos do Brasil e EUA firmaram acordo para a produção de látex, que serviria para equipar com borracha os veículos utilizados pelos aliados, já que os seringais asiáticos foram ocupados pelos japoneses que impediam a exportação para os americanos.
Esse esforço de guerra para produzir o látex entre 1942-1945, levou a nova onda de migração de brasileiros para os seringais que dessa vez ficaram conhecidos como “Soldados da Borracha“(quem não ia para a guerra, ia para o trabalho no seringal). Mas após esse período, a produção de látex perde a sua finalidade e a Ferrovia agonizou com suas velhas locomotivas a vapor fora do padrão tecnológico até 1972.
Muito tempo e muitas vidas para que se construísse aquela que foi a mais trágica ferrovia do continente americano e ficou conhecida como a “Ferrovia do Diabo”.

… O trem lá vai sacolejando. E sou mesmo eu que me sacolejo monótono nesta que é das mais terríveis estradas-de-ferro do mundo… Não…não se pode dizer que seja bonito não…Chãos péssimos de cerrado, matos fracos, alagadiços, pauis ainda negros, beirando o rio encachoeirado e apenas. Ninguém topa no caminho com Atenas nem com Buenos Aires. Ninguém terá pra ver, depois de se lavar no hotel, alguma Catedral de Burgos… Mas estes trilhos foram plantados sem reis do Egito e sem escravos… Sem escravos?…Pelo menos sem escravos matados a relho…Milhares de chins, de portugueses, bolivianos, italianos, árabes, gregos, vindos a troco de libra. Tudo quanto era nariz e pele diferente andou por aqui deitando com uma febrinha na boca-da-noite para amanhecer no nunca mais. O que eu vim fazer aqui?…”.

“…Qual a razão de todos esses mortos internacionais que renascem na bulha da locomotiva e vem com seus olhinhos de luz fraca me espiar pelas janelinhas do vagão?…É Guajará-Mirim, pouco mais de vinte-e-uma-horas. Recepção. Cansaço. Não há acomodação para todos. Alimento uma mentalidade de estouro. Falo pouco, fazendo força para me tornar antipático, recuso coisas. Recuso dormida em casa particular, dormirei no vagão! Não tenho água pro banho. Banho de cachaça. E durmo no vagão, heroicamente, sem medo das maleitas nem dos mortos, com um gosto raivoso de fraternidade nas mãos”

O Turista Aprendiz
(Diário de  viagem de Mário de Andrade durante excursão pelo Norte e Nordeste, 1927).

Para entrar no clima
  1. Leia*Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: história trágica de uma expedição
    (Neville Craig)*A Ferrovia do Diabo: história de uma estrada de ferro na Amazônia
    (Manoel R. Ferreira)*Mad Maria (Márcio Souza)

    2. Assista

    *Mad Maria
    Minissérie produzida pela TV Globo

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